Da China ao Brasil: o playbook do Kwai para escalar autenticidade, comércio e comunidade

28 de dezembro de 2025

A partir da conversa com Claudine Bayma, Diretora Geral do Kwai no Brasil, o Institute for Tomorrow analisa como plataformas chinesas evoluem quando deixam de ser “apps” e passam a operar como ecossistemas: cultura, comércio, tecnologia e impacto social em um mesmo sistema.

O futuro não começa na tecnologia. Começa na cultura.

Há uma armadilha recorrente quando o Ocidente olha para a China: ver apenas “tecnologia”.

Mas a China que interessa para quem desenha futuros não é a que impressiona pelo hardware. É a que organiza comportamento em escala — e, com isso, transforma cultura em infraestrutura.

É por isso que insistimos, ao longo de 2025, na pergunta: por que precisamos olhar para a China?

E é por isso que o episódio do TomorrowCast com Claudine Bayma, Diretora Geral do Kwai no Brasil, importa: ele oferece um exemplo claro de como esse “mandarim” pode ser traduzido para o Brasil sem caricatura, sem copy/paste e, principalmente, com brasilidade real.

A tese central do episódio é simples e profunda:

autenticidade pode ganhar escala — desde que a plataforma seja construída como ecossistema.

“Quem é você na fila do pão?”: quando trajetória vira modelo mental

O TomorrowCast começa onde quase ninguém começa: fora do LinkedIn.

Ao contar sua trajetória como “cidadã do mundo”, Claudine não está apenas compartilhando biografia. Está revelando o que, na prática, define uma liderança capaz de operar pontes culturais: repertório, mobilidade, curiosidade, adaptação.

Esse ponto não é periférico. Ele é estrutural.

Porque traduzir China para Brasil não é importar formato. É entender o que é universal (conceitos) e o que é local (narrativas). E isso exige uma mentalidade rara: olhar para a diferença como matéria-prima, não como obstáculo.

Do “global para o local” ao “local para o local”: a virada que muda tudo

Uma das passagens mais importantes da conversa é quando Claudine traz um insight que vem sendo defendido por líderes globais de mídia:

antes era do global para o local; agora é do local para o local.

Na prática, isso significa:

  • o formato pode ser global (vertical, curto, serializado, social)

  • mas a relevância só nasce quando o storytelling é local, regional, comunitário

  • e quando a plataforma permite que o micro encontre distribuição

Essa é a diferença entre “ter usuários” e “ter comunidades”.

Kwai no Brasil: crescimento pela inclusão do que o mainstream não via

A estratégia do Kwai no Brasil, segundo Claudine, foi clara: identificar um público desassistido pelo ecossistema dominante de conteúdo — pessoas fora dos grandes centros, com outras rotinas, outras referências, outras estéticas.

Em vez do caminho “óbvio” (começar por Rio–SP e depois expandir), o Kwai fez o inverso:

do interior para as metrópoles. Do Norte e Nordeste para Sul e Sudeste.

Essa decisão é mais do que go-to-market. É posicionamento cultural.

E ajuda a explicar o porquê de o Kwai ser frequentemente percebido como “a plataforma mais brasileira do Brasil”: porque ele não tenta “representar” o Brasil do alto. Ele busca pertencer ao Brasil de baixo, de dentro, de perto.

O resultado, na conversa, aparece em números e em linguagem:

  • uma base robusta de usuários ativos

  • alto tempo de retenção

  • e um posicionamento que não é slogan: “Aqui Geral Brilha” como lógica de produto, conteúdo e negócio.

Content Commerce: quando entretenimento vira renda (e renda vira permanência)

O ponto mais estratégico do episódio é a passagem em que o conteúdo deixa de ser “conteúdo” e passa a ser economia.

Aqui, o Institute for Tomorrow tem usado uma expressão que resume bem o fenômeno:

Content Commerce: conteúdo como motor de descoberta, confiança e conversão.

Claudine descreve como o Kwai opera essa integração de forma sistêmica:

  • live + vídeo curto + loja + cupons + afiliados + logística

  • criadores monetizam não só por views, mas por venda

  • pequenos comerciantes ganham escala sem depender de mídia tradicional

Ela cita exemplos fortes porque são concretos:

  • artesãos e pequenos produtores escoando produção

  • formatos como reality culinário voltado para “marmita” com objetivo explícito: gerar renda extra

  • ativações que unem entretenimento e maratona de live commerce

O que isso revela não é “uma feature”. É um novo arranjo social:

uma economia que gira em torno de criadores, produtos, narrativas e comunidades — com distribuição nativa.

E aqui entra um detalhe decisivo: o ecossistema permite que mais de um ator ganhe.

  • quem produz vende

  • quem cria conteúdo pode vender o produto de terceiros

  • quem assiste participa, comenta, confia, compra, compartilha

  • a comunidade vira a infraestrutura de conversão

Isso muda a lógica do funil.

Porque a compra não é o fim: é o próximo episódio.

“Autenticidade x escala” é um falso dilema

Há um momento em que Camilo tensiona o tema:

se a China nasce em escala, e o Brasil quer escala, como manter autenticidade?

A resposta de Claudine é uma das frases mais importantes do episódio:

autenticidade não exclui escala.

A chave está em perceber que o que escala não é o detalhe local.

O que escala é o conceito universal por trás da história: amor, humor, superação, cotidiano, pertencimento, motivação.

O local dá identidade. O universal dá escala.

Essa é a engenharia cultural do ecossistema.

O celular não é segunda tela: é um organismo próprio

Outro ponto com grande implicação para marcas e mídia é a mudança de paradigma:

  • por muito tempo, tratamos o mobile como “segunda tela”

  • mas ele não complementa a experiência: ele cria uma experiência independente

Isso exige uma ruptura na produção:

  • não é recorte de dramaturgia

  • não é “pegar o que já existe e repostar”

  • é construir do zero para consumo vertical, no trajeto, no tempo fragmentado, na lógica social

Claudine traz exemplos que ajudam a materializar essa visão: spin-offs e narrativas complementares (não cortes), camadas extras de conteúdo que alimentam a curiosidade e a comunidade.

Para o Institute for Tomorrow, isso reforça uma tese que repetimos em nossas missões:

o futuro do conteúdo é modular, serial, social e transacionável.

 IA como infraestrutura invisível: menos custo, mais autonomia, mais mercado

Quando a conversa chega em IA, ela não cai na tentação do “hype”. Ela vai direto ao ponto: eficiência e autonomia.

Claudine descreve ferramentas como:

  • Kling: IA para apoiar produção de conteúdo (com modelo de assinatura e escala global)

  • AI Seller no Kwai Shop: suporte para lojistas e pequenos vendedores criarem peças, variações, criativos e testes sem depender de equipe ou agência

A lógica é pragmática:

se um pequeno vendedor precisar pagar por dezenas ou centenas de variações (thumbnail, texto, criativos), o negócio deixa de ser viável.

A IA, então, não é “protagonista”. É facilitadora.

Ela permite que o criador e o lojista foquem no que realmente importa: produto, narrativa, comunidade e venda.

Aqui, a conversa toca num ponto central do nosso olhar pós-China:

a tecnologia mais poderosa é aquela que desapare mostra; ela vira tecido.

Microdramas: do formato ao mercado de propriedade intelectual

Quando o tema microdrama aparece, ele deixa claro o descompasso entre Brasil e China:

  • aqui ainda se discute o formato como “novidade” e oportunidade de branded content

  • lá, o ecossistema já evoluiu para venda de direitos, investimento e IP como ativo

O microdrama, então, não é só “conteúdo curto”.

Ele é uma porta de entrada para uma economia audiovisual mais democratizada:

  • produção mais barata (vertical, celular, menor aparato)

  • mais oportunidades para atores, roteiristas e produtoras menores

  • mais variedade e mais nicho

É o mesmo padrão que a China repete em vários setores:

quando o formato prova demanda, o mercado passa a organizar financiamento, direitos, distribuição e escala.

Love brand sem oportunismo: comunidade, regionalidade e constância

No fim, Camilo provoca: como construir uma love brand chinesa no Brasil?

A resposta não fala de campanha. Fala de postura:

  • não olhar o Brasil “de cima”

  • ir ao micro: Caruaru, Campina Grande, comunidades específicas

  • estar presente nos grandes momentos e nas paixões locais

  • e, sobretudo, constância sem oportunismo

É a diferença entre “ativar” e “pertencer”.

No vocabulário do Institute for Tomorrow, isso se conecta a um princípio:

marcas relevantes não ocupam cultura; elas constroem cultura com as pessoas.

O que essa conversa ensina para marcas, criadores e líderes

  1. Plataformas vencedoras viram ecossistemas

    Conteúdo, commerce, ferramentas, dados, logística, educação: tudo conectado.

  2. A economia do criador é uma economia de comunidade

    A comunidade não é audiência. É infraestrutura.

  3. O mobile exige narrativa nativa, não adaptação preguiçosa

    A verticalidade muda roteiro, ritmo e linguagem.

  4. IA é alavanca de democratização quando reduz custo e aumenta autonomia

    O ganho real não é “fazer bonito”, é tornar viável.

  5. Brasil é potência quando a distribuição alcança o país real

    O futuro do varejo e do conteúdo não está só nas capitais — está na capilaridade.

Por que o Kwai vira “tradutor” do mandarim

O Institute for Tomorrow acredita que o futuro já acontece — e que boa parte dele está sendo prototipada na China.

Mas o futuro não é importado. Ele é traduzido.

E, quando falamos de tradução com brasilidade, o Kwai aparece como um caso raro:

uma plataforma que não tenta “parecer brasileira”, e sim criar condições para que o Brasil apareça inteiro.

No fim, talvez a melhor síntese venha da própria conversa:

quando cultura, comportamento e tecnologia se encontram, nasce uma nova indústria.

E, em 2026, essa indústria deve acelerar.

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