China e IA na Educação: quando o futuro deixa de ser discurso e vira método, com Gui Rodrigues Alves

19 de dezembro de 2025

Durante muito tempo, falar sobre o futuro da educação foi sinônimo de falar sobre tecnologia. Plataformas, dispositivos, automação, edtechs. Mas o episódio mais recente do Tomorrowcast, com Guilherme Rodrigues Alves — fundador da Explore e membro do advisory board do SXSW e do SXSW EDU — deixa claro que essa equação está incompleta.

O que está em jogo agora não é se a inteligência artificial vai entrar na educação. Ela já entrou.

A pergunta real é: com que intencionalidade, com quais valores e a serviço de que tipo de sociedade?

Ao conectar experiências no SXSW EDU, aprendizados da China e da Coreia e uma trajetória profunda em gestão comunitária, aprendizagem criativa e inovação educacional, Guilherme ajuda a desmontar alguns mitos e iluminar caminhos mais realistas — e mais humanos — para quem pensa educação no Brasil e no mundo.

IA na educação não é protagonista. É infraestrutura.

Um dos insights mais potentes do episódio surge logo no início da conversa:

na China, a inteligência artificial não é apresentada como espetáculo.

Ela não aparece como “a aula de IA”, o “robô professor” ou o “novo gadget educacional”.

Ela opera como tecido invisível, integrada aos sistemas de avaliação, à gestão escolar, ao acompanhamento do aprendizado e à tomada de decisão estratégica.

O exemplo é simbólico:

máquinas que corrigem provas manuscritas com IA, devolvendo ao aluno um feedback que parece humano — enquanto os dados alimentam professores, coordenação e gestores com uma visão sistêmica do processo de aprendizagem.

Aqui, a tecnologia não substitui o educador.

Ela reorganiza o sistema para que o educador possa decidir melhor.

Esse ponto é central para entender por que o debate sobre IA na educação não pode ser reduzido a ferramentas, prompts ou modismos.

Dados, propósito e o dilema da privacidade

Outro choque cultural importante emerge quando falamos de dados.

Na China, câmeras em sala de aula, monitoramento de desempenho e análise comportamental fazem parte do sistema educacional — algo que, no Ocidente, imediatamente aciona alertas sobre vigilância.

Mas o episódio propõe uma distinção essencial:

intenção não é vigilância.

Quando os dados são usados para:

  • identificar dificuldades de aprendizagem,

  • orientar políticas públicas,

  • apoiar professores,

  • reduzir desigualdades de acesso,

eles deixam de ser instrumento de controle e passam a ser infraestrutura de equidade.

Isso não significa que o modelo seja replicável no Brasil — e Guilherme é claro ao dizer isso.

Mas ele nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda:

Se não vamos usar dados para decidir melhor, vamos decidir como?

Aprender para a vida, não para a prova

Talvez o eixo mais transformador da conversa esteja fora da tecnologia.

Ao contar a história que levou à criação da Explore Aprendizagem Criativa, Guilherme reforça um princípio que o Institute for Tomorrow também defende há anos:

educação é repertório, não conteúdo.

Inspirada na abordagem do MIT Media Lab, a aprendizagem criativa propõe:

  • aprender fazendo,

  • aprender com sentido,

  • aprender conectando arte, corpo e tecnologia,

  • desenvolver competências socioemocionais como base.

Aqui, maker não é impressora 3D.

Pode ser teatro, música, culinária, projeto comunitário.

O que importa não é a ferramenta, mas o envolvimento emocional e cognitivo com o aprendizado.

Essa visão dialoga diretamente com um paradoxo interessante citado no episódio:

escolas como a Waldorf, muitas vezes vistas como “datadas”, seguem formando pessoas com altíssima capacidade de pensamento crítico — justamente a habilidade mais ameaçada na era da IA.

Pensamento crítico e ética: as verdadeiras novas habilidades

Se existe um consenso transversal entre China, SXSW EDU e Brasil, ele é este:

pensamento crítico está em queda.

E isso é especialmente perigoso em um mundo onde qualquer pessoa pode gerar textos, imagens, vídeos e narrativas em escala industrial.

O episódio traz exemplos concretos de crianças chinesas, ainda no ensino fundamental, aprendendo a:

  • identificar conteúdos gerados por IA,

  • questionar fontes,

  • entender limites dos modelos,

  • refletir sobre ética e intenção.

Antes de ensinar como usar IA, ensina-se como pensar sobre ela.

Esse talvez seja o maior alerta para o Brasil:

a IA já está sendo usada por professores e alunos, muitas vezes sem formação, sem repertório e sem criticidade.

O risco não é tecnológico.

É cognitivo e cultural.

O que China, SXSW EDU e Brasil realmente têm em comum

Ao longo da conversa, uma armadilha é evitada com cuidado: a comparação simplista.

Não faz sentido “copiar” a China.

Assim como não faz sentido importar modelos da Islândia ou da Estônia para um país continental como o Brasil.

Mas faz todo sentido extrair princípios.

Entre eles:

  • educação como projeto de longo prazo,

  • integração entre política pública, cultura e escola,

  • clareza de intenção,

  • valorização do coletivo,

  • uso estratégico (e não performático) da tecnologia.

Nesse ponto, Guilherme aponta algo provocador:

talvez a Índia, mais próxima em escala, diversidade e desafios, seja um espelho mais útil para o Brasil do que os modelos europeus ou asiáticos mais homogêneos.

O SXSW EDU como espaço de tradução, não de tendência

O SXSW EDU aparece no episódio não como um oráculo, mas como um hub de tradução.

Sim, ainda há um viés norte-americano forte.

Mas há também espaço crescente para vozes do Sul Global, da Ásia, da América Latina e de realidades híbridas.

O valor do evento não está em prever o futuro, mas em conectar práticas, metodologias e experiências que podem — ou não — ser adaptadas a cada contexto.

Educação, afinal, não se transforma por tendência.

Se transforma por aplicação consistente no cotidiano.

Comunidade como tecnologia invisível

Talvez o fio mais silencioso — e mais poderoso — do episódio seja a ideia de comunidade.

Da associação de bairro à missão educacional internacional.

Do grupo de viagem ao ecossistema de troca contínua.

O futuro da educação não será construído apenas por políticas públicas ou startups.

Ele será construído por comunidades de prática, capazes de:

  • compartilhar repertório,

  • trocar experiências reais,

  • errar junto,

  • aprender junto.

Nesse sentido, missões, encontros, downloads coletivos e espaços de reflexão deixam de ser acessórios e passam a ser infraestrutura de aprendizagem contínua.

No futuro, educar será um ato de intenção

O episódio do Tomorrowcast não oferece respostas fáceis — e isso é um mérito.

Ele nos lembra que:

  • IA é meio, não fim;

  • dados exigem ética e clareza de propósito;

  • pensamento crítico não nasce de tecnologia, mas de cultura;

  • educação é um projeto civilizacional, não um produto.

No futuro, não vencerá quem adotar mais ferramentas.

Vencerá quem souber educar melhor para um mundo ambíguo, complexo e em constante transformação.

E isso começa agora. Assista ao episódio em nossas plataformas.

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