Durante muito tempo, falar sobre o futuro da educação foi sinônimo de falar sobre tecnologia. Plataformas, dispositivos, automação, edtechs. Mas o episódio mais recente do Tomorrowcast, com Guilherme Rodrigues Alves — fundador da Explore e membro do advisory board do SXSW e do SXSW EDU — deixa claro que essa equação está incompleta.
O que está em jogo agora não é se a inteligência artificial vai entrar na educação. Ela já entrou.
A pergunta real é: com que intencionalidade, com quais valores e a serviço de que tipo de sociedade?
Ao conectar experiências no SXSW EDU, aprendizados da China e da Coreia e uma trajetória profunda em gestão comunitária, aprendizagem criativa e inovação educacional, Guilherme ajuda a desmontar alguns mitos e iluminar caminhos mais realistas — e mais humanos — para quem pensa educação no Brasil e no mundo.
IA na educação não é protagonista. É infraestrutura.
Um dos insights mais potentes do episódio surge logo no início da conversa:
na China, a inteligência artificial não é apresentada como espetáculo.
Ela não aparece como “a aula de IA”, o “robô professor” ou o “novo gadget educacional”.
Ela opera como tecido invisível, integrada aos sistemas de avaliação, à gestão escolar, ao acompanhamento do aprendizado e à tomada de decisão estratégica.
O exemplo é simbólico:
máquinas que corrigem provas manuscritas com IA, devolvendo ao aluno um feedback que parece humano — enquanto os dados alimentam professores, coordenação e gestores com uma visão sistêmica do processo de aprendizagem.
Aqui, a tecnologia não substitui o educador.
Ela reorganiza o sistema para que o educador possa decidir melhor.
Esse ponto é central para entender por que o debate sobre IA na educação não pode ser reduzido a ferramentas, prompts ou modismos.
Dados, propósito e o dilema da privacidade
Outro choque cultural importante emerge quando falamos de dados.
Na China, câmeras em sala de aula, monitoramento de desempenho e análise comportamental fazem parte do sistema educacional — algo que, no Ocidente, imediatamente aciona alertas sobre vigilância.
Mas o episódio propõe uma distinção essencial:
intenção não é vigilância.
Quando os dados são usados para:
identificar dificuldades de aprendizagem,
orientar políticas públicas,
apoiar professores,
reduzir desigualdades de acesso,
eles deixam de ser instrumento de controle e passam a ser infraestrutura de equidade.
Isso não significa que o modelo seja replicável no Brasil — e Guilherme é claro ao dizer isso.
Mas ele nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda:
Se não vamos usar dados para decidir melhor, vamos decidir como?
Aprender para a vida, não para a prova
Talvez o eixo mais transformador da conversa esteja fora da tecnologia.
Ao contar a história que levou à criação da Explore Aprendizagem Criativa, Guilherme reforça um princípio que o Institute for Tomorrow também defende há anos:
educação é repertório, não conteúdo.
Inspirada na abordagem do MIT Media Lab, a aprendizagem criativa propõe:
aprender fazendo,
aprender com sentido,
aprender conectando arte, corpo e tecnologia,
desenvolver competências socioemocionais como base.
Aqui, maker não é impressora 3D.
Pode ser teatro, música, culinária, projeto comunitário.
O que importa não é a ferramenta, mas o envolvimento emocional e cognitivo com o aprendizado.
Essa visão dialoga diretamente com um paradoxo interessante citado no episódio:
escolas como a Waldorf, muitas vezes vistas como “datadas”, seguem formando pessoas com altíssima capacidade de pensamento crítico — justamente a habilidade mais ameaçada na era da IA.
Pensamento crítico e ética: as verdadeiras novas habilidades
Se existe um consenso transversal entre China, SXSW EDU e Brasil, ele é este:
pensamento crítico está em queda.
E isso é especialmente perigoso em um mundo onde qualquer pessoa pode gerar textos, imagens, vídeos e narrativas em escala industrial.
O episódio traz exemplos concretos de crianças chinesas, ainda no ensino fundamental, aprendendo a:
identificar conteúdos gerados por IA,
questionar fontes,
entender limites dos modelos,
refletir sobre ética e intenção.
Antes de ensinar como usar IA, ensina-se como pensar sobre ela.
Esse talvez seja o maior alerta para o Brasil:
a IA já está sendo usada por professores e alunos, muitas vezes sem formação, sem repertório e sem criticidade.
O risco não é tecnológico.
É cognitivo e cultural.
O que China, SXSW EDU e Brasil realmente têm em comum
Ao longo da conversa, uma armadilha é evitada com cuidado: a comparação simplista.
Não faz sentido “copiar” a China.
Assim como não faz sentido importar modelos da Islândia ou da Estônia para um país continental como o Brasil.
Mas faz todo sentido extrair princípios.
Entre eles:
educação como projeto de longo prazo,
integração entre política pública, cultura e escola,
clareza de intenção,
valorização do coletivo,
uso estratégico (e não performático) da tecnologia.
Nesse ponto, Guilherme aponta algo provocador:
talvez a Índia, mais próxima em escala, diversidade e desafios, seja um espelho mais útil para o Brasil do que os modelos europeus ou asiáticos mais homogêneos.
O SXSW EDU como espaço de tradução, não de tendência
O SXSW EDU aparece no episódio não como um oráculo, mas como um hub de tradução.
Sim, ainda há um viés norte-americano forte.
Mas há também espaço crescente para vozes do Sul Global, da Ásia, da América Latina e de realidades híbridas.
O valor do evento não está em prever o futuro, mas em conectar práticas, metodologias e experiências que podem — ou não — ser adaptadas a cada contexto.
Educação, afinal, não se transforma por tendência.
Se transforma por aplicação consistente no cotidiano.
Comunidade como tecnologia invisível
Talvez o fio mais silencioso — e mais poderoso — do episódio seja a ideia de comunidade.
Da associação de bairro à missão educacional internacional.
Do grupo de viagem ao ecossistema de troca contínua.
O futuro da educação não será construído apenas por políticas públicas ou startups.
Ele será construído por comunidades de prática, capazes de:
compartilhar repertório,
trocar experiências reais,
errar junto,
aprender junto.
Nesse sentido, missões, encontros, downloads coletivos e espaços de reflexão deixam de ser acessórios e passam a ser infraestrutura de aprendizagem contínua.
No futuro, educar será um ato de intenção
O episódio do Tomorrowcast não oferece respostas fáceis — e isso é um mérito.
Ele nos lembra que:
IA é meio, não fim;
dados exigem ética e clareza de propósito;
pensamento crítico não nasce de tecnologia, mas de cultura;
educação é um projeto civilizacional, não um produto.
No futuro, não vencerá quem adotar mais ferramentas.
Vencerá quem souber educar melhor para um mundo ambíguo, complexo e em constante transformação.
E isso começa agora. Assista ao episódio em nossas plataformas.
