Uma leitura do Institute for Tomorrow a partir das previsões de Scott Galloway
No Institute for Tomorrow, não olhamos previsões como exercícios de futurologia ou apostas sobre o que “vai acontecer”. Observamos previsões como artefatos culturais: elas revelam mais sobre o presente — seus medos, excessos, tensões e crenças — do que sobre o futuro em si.
Nesse sentido, as previsões de Scott Galloway para 2026 são especialmente relevantes. Não porque acertem ou errem fatos específicos, mas porque concentram, em um único discurso, sinais que vêm emergindo há anos e que agora começam a se alinhar de forma inquietante.
O que elas indicam não é um novo ciclo de inovação, mas o encerramento simbólico de uma fase: a fase em que tecnologia era tratada como promessa abstrata, desvinculada de limites físicos, humanos, sociais e políticos.
2026 aparece menos como ruptura e mais como momento de ajuste. Um ponto em que o futuro deixa de ser discurso aspiracional e passa a ser consequência direta de escolhas feitas na última década.
O fim da narrativa da tecnologia infinita
Um dos sinais mais claros desse ajuste está na forma como a inteligência artificial começa a ser reposicionada. A IA deixa de ocupar o lugar do “extraordinário” e passa a operar como infraestrutura crítica. E infraestrutura, por definição, revela fragilidades sistêmicas.
Energia, capacidade de rede, cadeias produtivas, geopolítica e governança – temas antes tratados como pano de fundo – tornam-se centrais. O discurso de crescimento ilimitado encontra o mundo físico. E o mundo físico responde com fricção, atraso e custo.
Do ponto de vista de foresight, isso é um sinal clássico de transição de ciclo. Tecnologias emergentes passam por um momento em que o imaginário coletivo corre mais rápido do que a realidade material. Quando essa distância se torna grande demais, ocorre o ajuste, não necessariamente um colapso, mas uma reorganização de expectativas.
China, IA e a mudança do eixo de poder tecnológico
Outro sinal relevante presente nas previsões de Galloway é o papel da China, não como antagonista ideológico, mas como modelo alternativo de organização do futuro tecnológico.
Enquanto grande parte do Ocidente tratou a IA como produto premium e ativo financeiro, a China a incorporou como capacidade estrutural. Modelos open source, custos mais baixos e desempenho suficiente indicam um deslocamento importante: a inteligência artificial começa a seguir a lógica de outras tecnologias estratégicas do passado: aço, energia, baterias, semicondutores.
Para o Institute for Tomorrow, esse movimento sinaliza algo maior do que uma disputa tecnológica. Trata-se de uma mudança no centro de gravidade do poder. Quando tecnologias se tornam commodities, o valor deixa de estar no acesso e migra para a capacidade de aplicação contextual, cultural e sistêmica.
Esse é um sinal particularmente relevante para mercados emergentes e para organizações que operam fora dos grandes centros tradicionais de inovação.
Plataformas, creators e o colapso do modelo industrial de mídia
As previsões relacionadas ao TikTok, ao short-form video e à crise de Hollywood apontam para outro ajuste estrutural: o colapso definitivo do modelo industrial de mídia e entretenimento.
Do ponto de vista de foresight cultural, não se trata apenas de uma mudança de formato ou canal. O que está em jogo é uma reorganização da relação entre atenção, produção e identidade.
Creators emergem não como tendência, mas como consequência de um sistema em que:
produção é barata,
distribuição é direta,
intermediação perde valor,
e a relevância é construída em tempo real.
O sucesso de plataformas que reduzem a escolha e operam fluxos contínuos de conteúdo sinaliza um cansaço coletivo com a complexidade excessiva. Menos opções, mais fluidez. Menos decisão, mais entrega algorítmica.
Esse movimento exige que marcas, instituições e produtores culturais repensem profundamente seus papéis — não como emissores, mas como participantes de ecossistemas vivos.
Relações sintéticas: um sinal social subestimado
Entre todos os temas levantados, talvez o mais sensível seja o avanço das relações sintéticas mediadas por IA. Para o Institute for Tomorrow, esse não é um tema tecnológico, mas antropológico e social.
O crescimento da solidão, especialmente entre jovens, combinado com a oferta de companhias artificiais sem fricção, revela um risco estrutural: a substituição da complexidade relacional humana por experiências emocionalmente confortáveis, porém empobrecidas.
Em foresight, esse tipo de sinal costuma ser negligenciado até que seus efeitos se tornem sistêmicos. Dependência emocional, retração social, dificuldade de lidar com conflito e frustração são externalidades que não aparecem nos dashboards de inovação, mas moldam profundamente o futuro das sociedades.
Educação e o retorno da pergunta essencial: para quê?
As previsões também apontam para uma revalorização silenciosa da educação formal, não como produto de luxo, mas como infraestrutura de formação humana. O problema não é a irrelevância da educação, mas a perda de clareza sobre sua função em um mundo de IA abundante.
Quando informação deixa de ser escassa, o valor migra para outras capacidades: pensamento crítico, ética, leitura de contexto, consciência histórica e capacidade de síntese. Do ponto de vista de desenho de futuros, isso exige uma revisão profunda dos modelos educacionais e das métricas de sucesso adotadas hoje.
O que 2026 nos diz sobre o futuro
Ao conectar esses sinais, o que emerge não é um futuro distópico nem utópico, mas um futuro mais exigente. Menos tolerante a narrativas vazias. Menos indulgente com promessas sem sustentação.
Para o Institute for Tomorrow, 2026 não marca o auge da tecnologia, mas o início de sua fase adulta. Um momento em que inovação deixa de ser fetiche e passa a ser responsabilidade.
O futuro não será definido apenas por quem cria novas tecnologias, mas por quem consegue integrá-las a sistemas humanos, sociais, energéticos e culturais de forma consciente.
E esse, mais do que nunca, é um desafio de desenho de futuros — não de previsão.