Web Summit 2025 – day 1: inteligência artificial, confiança e o marketing num mundo que simula tudo

Brad Smith President Microsoft at Web Summit 2025

Num dia marcado por discursos de grandes responsáveis tecnológicos, a conferência expôs três tendências que se entrecruzam: a transição de modelos linguísticos para modelos de mundo, o ataque e a defesa da informação pública, e a reinvenção das tácticas de marketing digital à sombra da IA. Os intervenientes insistiram que as escolhas políticas e empresariais de hoje vão moldar a utilidade e a confiança nas tecnologias de amanhã.

Microsoft e Brad Smith: acelerar a difusão da IA, com prudência e escala

Brad Smith desenhou uma estratégia dupla, consistente e pública: acelerar a difusão da IA mas ancorada na educação, inclusão e confiança. Na sua intervenção, Smith lembrou que a revolução generativa já atingiu mais de mil milhões de pessoas em tempo recorde, e advertiu para a emergência de uma “fractura” entre países e regiões que usam IA e os que ficam de fora. Para mitigar essa fractura, Microsoft anuncia iniciativas de formação e investimento estruturado. A empresa lançou em julho o programa Microsoft Elevate, orientado para escolas, organizações sem fins lucrativos e instituições de ensino, e comprometeu-se a investir quatro mil milhões de dólares até ao final da década para programas de “skilling” e inclusão digital.

Smith enfatizou que difundir capacidade tecnológica requer três elementos que têm de convergir, tecnologia, talento e confiança. Sem estes elementos, os centros urbanos continuarão a acelerar enquanto comunidades rurais e países em desenvolvimento ficam para trás. A sua tese é prática: aumentar centros de dados ajuda, mas só aplicações que resolvam problemas reais e uma educação de base em literacia de IA garantirão adopção sustentável.

“We are living through a profound era of change where technology, work, and human creativity are converging in new ways,” disse Brad Smith, resumindo a ambição de acelerar a difusão da IA com responsabilidade.

Do “capture” ao “simula”: os modelos de mundo prometem mudar a base da computação visual

A nova bateria de modelos que aprende a física do mundo e a gerar cenas em tempo real promete transformar videojogos, formação profissional e robótica. A ideia central é simples, mas ambiciosa: sair do texto e do token, e treinar máquinas para prever ações e consequências em espaços 3D. Essa transição exige mais capacidade de cálculo e alterações nos fluxos de trabalho, mas, segundo os oradores, já está em curso e será discutida como questão dominante em 2026.

A confiança em causa, a imprensa na primeira linha

O debate sobre desinformação e polarização mostrou uma indústria em defesa da sua função pública. A estratégia de quem procura minar o jornalismo já não se baseia apenas em censura ou violência, mas num conjunto de medidas legais, económicas e institucionais que estrangulam a capacidade de investigação independente. Proteger o direito do público a informação fiável exige resistência colectiva, explicação do valor do jornalismo e defesa judicial e institucional.

Marketing e produtos: como vender um futuro que ainda não existe

A Meta apresentou a sua abordagem prática: crescer não apenas em utilizadores, mas em profundidade de uso, incluindo hardware emergente e IA integrada. A publicidade personalizada continua central, com um dado ilustrativo: cerca de 20% das conversões para um produto como os óculos inteligentes vieram de campanhas com influenciadores. Isso revela que, mesmo num ambiente cada vez mais automatizado, o toque humano e as narrativas criadas por pessoas continuam a gerar valor medível.

“We’d like to see them using the smart glasses, we’d like to see them engaging with the AI,” afirmou Alex Schultz, evidenciando a aposta da Meta em aprofundar a utilização dos seus produtos mais do que simplesmente alargar a base de utilizadores.

Sumário de insights acionáveis

  1. Planeie hoje para inferência em tempo real, não apenas para modelos offline. A adopção de modelos de mundo requer investimento em capacidade de cálculo e arquitectura de dados.

  2. Proteja a reputação informativa da sua organização com transparência operacional e defesa legal. A comunidade editorial recomenda documentar processos e criar alianças institucionais.

  3. No marketing, combine automação com criatividade humana. Campanhas com influenciadores ainda trazem conversões significativas, pelo menos para produtos emergentes como óculos inteligentes.

  4. Priorize experiências que mostrem valor prático e imediato (educação personalizada, formação em simulated environments), isto enquanto se trabalha as regras de segurança e moderação que evitem uso malicioso.

  5. Exerça advocacia pública sobre normas de IA. A governação técnica e a política pública vão definir quais os caminhos disponíveis para a inovação responsável.

O encontro em Lisboa desenhou um mapa de tensões e oportunidades. A promessa dos modelos de mundo, a fragilidade do ecossistema de confiança e a necessidade de marketing que combina dados com narrativa convergem para um ponto prático: construir utilidades úteis requer simultaneamente investimento técnico, instituições fortes e um sentido claro do que se considera aceitável. As decisões tomadas por empresas e reguladores nos próximos anos não vão apenas acelerar determinados produtos, vão decidir que tipo de sociedade esse progresso serve.

O Institute for Tomorrow acompanha os sinais e tendências nos maiores eventos para apoiar o desenho de estratégias de futuros acionáveis  com organizações e pessoas.

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