O derradeiro dia da Web Summit concentrou vozes do espectáculo, da tecnologia e do marketing em torno de uma pergunta prática: como transformar os avanços da inteligência artificial em utilidades que amplifiquem valor, sem destruir os mercados que as alimentam. Debateram-se três temas interligados, e delineou-se um conjunto de recomendações pragmáticas. A conversa cruzou autoria e remuneração na economia criativa, governança e confiança na infraestrutura da internet, e a necessidade de métricas que privilegiem profundidade de uso em vez de mero alcance.
AI e criatividade, o novo contrato social
A emergência de modelos generativos força um choque de interesses entre plataformas, agentes de distribuição e criadores. Joseph Gordon-Levitt lançou um aviso directo sobre a sustentabilidade da economia criativa, defendendo mecanismos que assegurem atribuição e compensação contínua quando o trabalho de um autor alimenta modelos de IA. Como disse Gordon-Levitt,
“aceitar o uso massivo de conteúdos sem compensação é assinar uma nova servidão digital”
imagem contundente que resume a sua proposta: não basta reconhecer autoria, é preciso remunerá-la de forma recorrente, via sistemas de proveniência e partilha de receitas. A proposta implica mudanças técnicas, contratos e regras de mercado que permitam que o criador capture parte do valor que os modelos extraem das suas obras.
Confiança, regulação e a arquitectura da internet
A confiança não aparece por defeito técnico, aparece por desenho institucional. Especialistas e reguladores discutiram medidas que alinhem incentivos, desde normas de atribuição até requisitos de transparência e mecanismos de responsabilização para plataformas. O debate salientou que políticas bem desenhadas podem evitar a concentração de rendimentos e a erosão da qualidade informativa. A urgência é dupla: criar regras que protejam o interesse público, e ao mesmo tempo permitir experimentação que gere utilidade real aos cidadãos.
Marketing, produtos e a métrica que importa
As empresas já não se satisfazem com métricas superficiais de audiência; procuram profundidade de uso. Alex Schultz, CMO da Meta, formulou esta prioridade de forma clara: “We’d like to see them using the smart glasses, we’d like to see them engaging with the AI”, frase que expõe a mudança de objectivo comercial, de alcance para envolvimento. A consequência é prática: as equipas de produto deverão desenhar experiências que provoquem uso repetido, e as equipas de marketing deverão medir retenção, frequência e valor experiencial, não apenas impressões e cliques.
Sumário de insights acionáveis
- Reformule o contrato com criadores, assine com mecanismos de atribuição e pagamentos continuados quando os seus conteúdos alimentam modelos de IA. A proposta de Gordon-Levitt clama por sistemas de proveniência e partilha de receitas, não por «acordos únicos».
- Mida profundidade de uso, não só alcance. Testes de produto devem privilegiar KPIs que capturem utilização efectiva de hardware e agentes conversacionais, tal como propõe Meta.
- Invista em infraestruturas de confiança. Reguladores e empresas devem cooperar para criar normas que permitam inovação com responsabilização, evitando soluções que troquem futuro por ganhos imediatos.
- Crie modelos de monetização contínua. A lógica de «comprar dados uma vez» fere a economia criativa. Negócios que pagam pelo uso contínuo do contributo criador constroem ecossistemas mais sustentáveis.
- Experimente localmente, escale com cuidado. Pilotos que provem utilidade imediata, apoiados por métricas de retenção e impacto, reduzem risco regulatório e aumentam aceitação social.

Web Summit 2025: inovação imediata, economia criativa em risco e a ascensão de novos hubs
O Web Summit 2025 reafirmou que a conversa sobre IA deixou de ser apenas técnica, passou a centrar arranjos económicos, institucionais e de produto que vão decidir quem beneficia da transformação, com três ideias dominantes e duas perspetivas adicionais que surgiram com força nos painéis e demos.
Primeiro, a ascensão dos «agentic AI» e dos modelos de mundo transformou a narrativa sobre o que é a IA: já não se trata só de acelerar tarefas, mas de criar agentes autónomos que executam fluxos de trabalho e geram valor integrado, o que está a democratizar o desenvolvimento e a exigir uma recalibragem dos indicadores de ROI nas empresas.
Segundo, a economia dos criadores profissionalizou-se, com plataformas e instituições a articular modelos de monetização direta e ferramentas de proveniência que permitem transformar paixão em carreira. Essa profissionalização resulta da combinação entre ferramentas acessíveis de criação e mercados diretos, um fenómeno documentado nas plataformas que permitem prototipagem quase instantânea e na pressão por contratos que remunerem o uso contínuo de conteúdos.
Terceiro, a confiança e a governação voltaram ao centro. Debateram-se normas de atribuição, soberania de dados e arquiteturas alternativas que devolvem controlo ao utilizador, porque sem instituições e regras claras a adoção massiva corre o risco de concentrar rendimentos e erosão informativa.
A estas linhas dominantes somam-se duas perspetivas práticas que surgiram ao longo do evento. A primeira, económica e operacional, é que a IA está a acelerar a chegada de ideias ao mercado, permitindo que startups resolvam micro-problemas com impacto real, sobretudo em saúde, e que o perfil dos fundadores mudou: ferramentas como plataformas de desenvolvimento em linguagem natural reduzem barreiras técnicas, tornando possível que qualquer boa ideia ganhe forma e chegue a protótipo em horas, não meses; isso ficou visível nas demos e em debates sobre impacto em saúde e priorização de intervenções.
A segunda perspetiva é geopolítica: a corrida pela liderança em modelos de IA tornou-se multipolar. O evento sublinhou que a China tem forte protagonismo na produção de modelos potentes, muitos com distribuição open-source, e que isso está a desafiar a primazia das empresas ocidentais; ao mesmo tempo, várias nações, incluindo Portugal, anunciam investimentos estratégicos para atrair capacidade e talento, o que redesenha o mapa da competição tecnológica.
Em síntese, o Web Summit 2025 trouxe uma visão prática: os ganhos da IA já não dependem apenas de modelos melhores, dependem de contratos, infraestruturas e produtos capazes de gerar uso repetido; dependem de modelos de remuneração que preservem a economia criativa; e dependem de uma compreensão geopolítica realista, onde hubs múltiplos disputarão talento e capacidade. As prioridades operacionais derivadas deste quadro são claras, entre elas reajustar KPIs para profundidade de uso, desenhar pilotos de impacto, implementar registos de proveniência para conteúdos e alinhar investimentos em skilling com infraestruturas locais.