O segundo dia do Web Summit Lisboa 2025 sublinhou o estado de aceleração tecnológica global, dos robôs que já trabalham lado a lado com humanos à força de plataformas financeiras públicas, passando pela interseção entre criatividade digital e sociedade. Num cenário em que inovação é negociada entre eficiência, inclusão e responsabilidade, o palco do Summit reuniu vozes que apontam para o futuro das cidades, do dinheiro e dos media. Três temas marcaram o debate do dia: a chegada prática dos robôs, a disrupção global do sistema Pix e o poder de plataformas como TikTok na cultura contemporânea.
Robôs em ação: o pragmatismo tecnológico chega à linha de produção.
A apresentação de Robert Playter, CEO da Boston Dynamics, trouxe à tona a centralidade dos robôs na nova economia. Em tom sóbrio e prático,
Playter lembrou: “We’re about to get the robots that we’ve been dreaming about for decades that are going to do the dull, dirty, and dangerous work to keep our economy running.”
Com o envelhecimento populacional desencadeando falta de mão-de-obra qualificada em economias maduras, robôs deixam de ser promessa longínqua e passam a ser resposta concreta à escassez de trabalhadores.
“Populations have already started to decline around the world. In China, in Japan, in Korea, in fact, in all of the high-income and upper middle income economies, the reproduction rate of people is already below that required to replace our population. In the United States alone, by 2030, they expect that we will be short 2.1 million workers.”
A narrativa dominante já não se fixa em ficção científica, mas sim na confiabilidade “Dependability. You need reliable machines and there is no shortcut here…”, segurança “Safety. Something that not enough roboticists are talking about…”, e valor tangível ao cliente. O futuro não pertence apenas aos robôs, mas às estratégias que integrem tecnologia trabalhável e adaptável às urgências sociais e económicas.
Pix: revolução no sistema financeiro muito para além do Brasil.
No painel “The $7 trillion Pix shock: Why the US is rattled”, o debate sobre o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro foi marcado por números e afirmações que colocam Pix como infraestrutura de Estado exemplar.
“Pix é uma tecnologia pública e gratuita, que democratiza o acesso financeiro: basta ter um celular para operar,”
destacou Luis Fernandes, vice-ministro brasileiro, enquanto William Lazonick reforçou que
“Pix representa soberania digital e inovação estatal: são mais de 160 milhões de brasileiros incluídos digitalmente em poucos anos.”
Ao eliminar tarifas, facilitar microtransações e estender a inclusão financeira a camadas antes invisíveis à banca tradicional, Pix tornou-se modelo global, contrastando com sistemas privados e fechados como os dos EUA. A tensão é clara: “Chamaram o Pix de ‘ameaça à segurança dos Estados Unidos’. Mas, na verdade, é só modelo público eficiente para operar pagamentos.” O Brasil transformou a infraestrutura digital numa arma geopolítica, e outros mercados começam a observar o sucesso da sua aposta pública. O impacto é irreversível: todos, do comerciante de rua ao empreendedor, agora aceitam Pix – e até o mendigo na esquina pergunta pelo QR code.
TikTok e o ciclo da criatividade comunitária
Khartoon Weiss, VP do TikTok, abordou o papel da plataforma como “cultural growth engine”, responsável por um renascimento criativo global. O fenómeno BookTok, por exemplo, gerou um aumento de 40% nas vendas de livros em menos de dois anos, provando que influência digital tem reflexos reais em mercados tradicionalmente offline.
A lógica da plataforma rompe com antigos paradigmas de produção e distribuição: “Criámos vários caminhos para as pessoas se tornarem empreendedoras… capacitamo-los com ferramentas e serviços, de dados a IA que amplifica (não substitui) a criatividade.”
A curadoria algorítmica e o protagonismo dos criadores exigem responsabilidade (“Responsabilidade para nós é igual a confiança e segurança… quando as pessoas se sentem bem no espaço que estão, sentem-se confortáveis para mostrar quem realmente são, partilhar e criar.”) e transformam plataformas sociais em ecossistemas de valor, onde o engajamento genuíno importa mais que a simples viralização.
Sumário de insights acionáveis
- A aceleração das tecnologias robóticas obriga empresas e governos a repensar qualificação, integração e segurança no local de trabalho.
- O modelo Pix ilustra que soluções públicas e inclusivas podem ganhar tração global e desafiar hegemonias estabelecidas, desde que apoiadas por políticas eficazes e uso massificado.
- Plataformas como TikTok mostram que criatividade coletiva e segurança digital são valores essenciais num mundo de plataformas, exigindo investimento em moderação, apoios e ferramentas que potencializam talentos variados.
- Decisores e líderes devem apostar em estratégias de adoção progressiva de robôs, incentivar infraestruturas digitais abertas e fomentar ambientes seguros nas redes sociais, garantindo que inovação seja sempre um vetor de inclusão e utilidade pública.
As tendências do dia apontam para um futuro em que eficiência técnica só terá impacto duradouro se for acompanhada por propósito e políticas sólidas de confiança e inclusão.
O Institute for Tomorrow acompanha os sinais e tendências nos maiores eventos para apoiar o desenho de estratégias de futuros acionáveis com organizações e pessoas.