
Neste episódio especial do TomorrowCast, Marília Marton – Secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de SP – explica por que São Paulo decidiu tratar cultura como política de desenvolvimento — e o SXSW como plataforma estratégica de futuro.
O TomorrowCast nasce de uma inquietação que atravessa tudo o que fazemos no Institute for Tomorrow: entender como os futuros se constroem antes de virarem discurso, tendência ou buzzword. E, quase sempre, quando seguimos esse fio até o fim, chegamos ao mesmo lugar — a cultura.
Não a cultura como setor ornamental, nem como política acessória. Mas a cultura como infraestrutura invisível que sustenta economias, molda comportamentos, organiza territórios e dá densidade humana à tecnologia.
É por isso que a conversa com Marília Marton não é apenas mais um episódio da série SXSW. Ela funciona como uma chave de leitura mais profunda sobre o momento que São Paulo atravessa — e sobre a decisão de tratar cultura não como agenda, mas como política de desenvolvimento.
Ao longo do episódio, fica claro que há uma mudança estrutural em curso. A cultura deixa de ocupar um lugar defensivo, dependente de justificativas simbólicas, e passa a ser organizada como sistema: com cadeias produtivas, métricas, impacto econômico, geração de trabalho e visão de longo prazo. Moda, design, games, gastronomia, música, audiovisual, ciência e tecnologia aparecem não como áreas concorrentes, mas como camadas interdependentes de um mesmo ecossistema criativo.
Esse reposicionamento não nasce de abstração teórica. Ele emerge de um diagnóstico duro do pós-pandemia. A ideia romântica de que “a cultura sobrevive por paixão” mostrou seus limites. Sem estrutura, a cultura adoece. Sem cultura, o futuro perde profundidade, repertório e capacidade crítica.
É nesse contexto que o SXSW ganha outro significado. Para São Paulo, o festival não é vitrine nem evento isolado. É plataforma estratégica. Um espaço onde cultura, tecnologia, economia, política e comportamento se cruzam em estado bruto, permitindo não apenas visibilidade, mas conexão, negociação e coprodução de futuros.
A transformação da Casa São Paulo em uma Vila materializa essa leitura. O espaço deixa de ser apenas um ponto de encontro brasileiro e passa a operar como plataforma relacional aberta, pensada para ativar conversas, gerar negócios, criar vínculos e posicionar o Estado dentro de um sistema global de trocas culturais e econômicas. Não se trata de “mostrar São Paulo”, mas de colocá-la em circulação — com suas contradições, sua diversidade e sua potência criativa.
Um ponto especialmente forte da conversa é a recusa da lógica de internacionalização como exportação acrítica. O que está em jogo não é adaptar narrativas para caberem em um molde global, mas aprofundar aquilo que já somos. A força da cultura brasileira — e paulista — está justamente em suas raízes, em sua mistura, em sua capacidade de produzir sentido a partir do cotidiano. É isso que interessa ao mundo. Internacionalizar, aqui, não é fugir da identidade, mas afirmá-la.
Em meio a um debate global dominado pela inteligência artificial, o episódio traz uma lembrança essencial: tecnologia sem lastro humano não sustenta futuro algum. A cultura aparece como o campo que preserva ética, sensibilidade, pensamento crítico e repertório simbólico. É ela que prepara pessoas para atravessar transformações profundas sem perder humanidade. É ela que impede que inovação vire apenas aceleração vazia.
Talvez o aspecto mais importante da conversa seja a defesa explícita da continuidade. A presença de São Paulo no SXSW, assim como a política de internacionalização criativa, não pode depender de ciclos eleitorais ou vontades circunstanciais. Precisa ser programa de Estado, apropriado pela sociedade, pelas instituições, pelo mercado e pelos próprios criadores. Futuros não se decretam. Futuros se constroem — coletivamente, com método, responsabilidade e visão de longo prazo.
Abrir a série SXSW 2026 do TomorrowCast com Marília Marton não é um gesto casual. É uma escolha editorial clara. Um posicionamento.
Porque, no fim, o que este episódio revela é simples e profundo ao mesmo tempo:
o futuro começa quando a cultura deixa de ser pauta e passa a ser infraestrutura.
🎧 O episódio já está disponível no TomorrowCast.
A cobertura completa do SXSW 2026 — antes, durante e depois — seguirá nos canais do Institute for Tomorrow.
