Quando tecnologia deixa de ser setor e passa a ser infraestrutura do mundo
Todos os anos, existe um texto aguardado por todos que desejam saber explicar o futuro, mas que serve mesmo é para reposicionar o presente.
A carta anual de Amy Webb.
Mais do que um relatório de tendências, ela funciona como um diagnóstico sistêmico do momento histórico que estamos atravessando. Um texto que conecta tecnologia, economia, geopolítica, energia, trabalho, cultura e confiança em uma única leitura de mundo. E é exatamente por isso que ela é tão aguardada por líderes globais, conselhos, formuladores de políticas públicas e estrategistas.
Se ainda existir alguém que conhece o Institute for Tomorrow, mas não conhece Amy Webb – além de ficarmos lisonjeados – vamos te contar quem é: ela é fundadora do Future Today Strategy Group, professora da NYU Stern, autora de livros como The Big Nine e uma das principais referências globais em strategic foresight. Seu trabalho não é sobre prever tendências, mas sobre ajudar organizações a construir capacidade de decisão em contextos de incerteza radical. Há quase duas décadas, sua carta anual se tornou um ponto de referência para quem precisa olhar além do próximo trimestre.
A edição que fecha 2025 é especialmente relevante porque parte de uma constatação clara e definitiva: a tecnologia deixou de ser um setor. Ela se tornou o substrato invisível que molda todas as outras forças do mundo contemporâneo.
Geopolítica, economia, energia, trabalho, cultura, enfim, tudo hoje é amplificado, condicionado ou redirecionado por tecnologia. Em especial, pela inteligência artificial. E isso muda completamente o papel da liderança.
O volume de investimentos em IA em 2025 deixa isso evidente. Não estamos mais falando de experimentação pontual ou hype passageiro, mas de infraestrutura em escala: data centers, energia, chips, cadeias produtivas e políticas industriais sendo redesenhadas. Quando uma tecnologia atinge esse nível, o sistema passa a se reorganizar ao redor dela, independentemente do retorno imediato.
Por isso, Amy desloca o foco do debate. O sinal mais importante não é performance técnica, nem benchmarks entre modelos. É a adoção formal dentro das organizações. Pilotos não transformam empresas. O que transforma é quando a tecnologia altera, de forma durável, como o trabalho é feito, como decisões são tomadas e como valor é criado.
Aqui surge uma provocação central da carta: se a principal consequência da IA for apenas eficiência marginal e redução de custos, isso deveria nos preocupar. Eficiência é uma agenda defensiva. As grandes transformações tecnológicas da história sempre foram, antes de tudo, vetores de expansão de mercados, de produtos, de possibilidades.
É a partir desse pano de fundo que Amy apresenta o que talvez seja o conceito mais importante para entender 2026: convergência.
Estamos entrando em uma fase em que tecnologias deixam de evoluir de forma isolada e passam a evoluir umas às outras. IA com biologia. Robótica com software. Energia com computação. Dados com novos materiais. Quando isso acontece, a inovação deixa de ser linear e previsível. Ela se torna composta, acelerada e profundamente desorganizadora.
As convergências reescrevem cadeias de valor, colapsam timelines e tornam obsoletas muitas das categorias com as quais ainda organizamos empresas e mercados. Estratégia deixa de ser escolher apostas e passa a ser arquitetar sistemas capazes de se adaptar continuamente.
Essa mudança fica ainda mais clara quando olhamos para a transição da internet de busca para a internet de conversa. Durante décadas, a busca foi a porta de entrada da economia digital. Agora, essa porta começa a ser substituída por agentes conversacionais capazes de interpretar intenção, tomar decisões e executar ações.
O impacto não é apenas tecnológico. É econômico. Quando decisões passam a acontecer dentro de sistemas conversacionais, o “meio” da jornada — cliques, páginas, afiliados, comparadores — perde relevância. A disputa deixa de ser por atenção e passa a ser por representação confiável dentro de modelos. Como marcas, produtos e serviços são descritos, priorizados e recomendados por sistemas automatizados.
O mesmo raciocínio sistêmico aparece na análise sobre o futuro do trabalho. A questão central não é mais automação de tarefas, mas a emergência de algo mais profundo: trabalho em escala ilimitada. Com o avanço de modelos multimodais e robótica, tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e passa a se comportar como força produtiva.
Isso não significa o fim do trabalho humano, mas sua reconfiguração. Funções se desagregam e se reagrupam. Cresce a demanda por orquestração, supervisão, avaliação e governança de sistemas híbridos. O trabalho muda de lugar na cadeia de valor.
Talvez o ponto mais consequente da carta esteja na convergência entre IA e biologia. Quando modelos passam a ler, escrever e projetar DNA, a biotecnologia deixa de ser uma vertical e se torna uma plataforma industrial. Materiais podem ser cultivados, insumos podem ser programados e cadeias produtivas migram do extrativismo para o laboratório.
Mas Amy faz um alerta fundamental: biologia não permite rollback. Diferente do software, sistemas vivos carregam riscos de mutação, uso indevido e impactos irreversíveis. Governar essa convergência exige novos marcos éticos, regulatórios e organizacionais.
Tudo isso acontece em paralelo a um movimento silencioso e perigoso: a crise estrutural da confiança. Em um mundo onde voz, vídeo, documentos e interações podem ser sintetizados com alta fidelidade, confiança deixa de ser intangível e passa a ser infraestrutura crítica. Marca, reputação e governança tornam-se superfícies de ataque.
No pano de fundo, a carta também aponta para uma reconfiguração da globalização. Não se trata de desglobalização, mas de uma globalização orientada por segurança e soberania. Energia, semicondutores, dados e alimentos deixam de ser apenas custos e passam a ser ativos estratégicos. Estratégia corporativa, política industrial e geopolítica se entrelaçam como nunca.
O fio condutor de toda a carta é claro: estratégia deixou de ser plano e passou a ser arquitetura. Arquitetura de sistemas de trabalho, de decisão, de confiança e de valor. A vantagem competitiva não está em prever melhor, mas em construir capacidade de adaptação contínua.
A carta anual de Amy Webb não pede que acompanhemos tendências. Ela nos convida a reconhecer uma mudança de regime. Em 2026, o futuro não chega como anúncio. Ele chega como mudança de interface, de cadeia, de trabalho e de verdade.
Para quem deseja aprofundar, este texto é apenas o ponto de partida. Vale mergulhar no Future Trends Report, onde essas teses ganham densidade analítica e cenários aplicáveis. E vale, sobretudo, viver esse debate no SXSW, onde essas ideias ganham tensão, contrapontos e materialidade.
Nós estaremos lá, e convidamos a vir conosco conosco e se aprofundar nesta conversa.
Porque, quando tecnologia se torna infraestrutura do mundo, entender o futuro à distância já não é suficiente.
A pergunta que fica é simples e decisiva: você está apenas reagindo às mudanças — ou está arquitetando a capacidade de operar quando elas se tornam inevitáveis?
Leia a carta na íntegra aqui
